Em alguns momentos da vida gosto de meditar e tentar entrar em transe. Coloco no fone de ouvido alguma música que de alguma maneira me induza, sento e tento focar só na minha respiração. Poucas sensações na vida são melhores do que essa, é uma sensação de que está resetando o corpo, levando a consciência para um passeio em uma espécie de universo paralelo. Sua alma parece sair para um universo em que só existe a frequência da música e o fluxo da sua respiração.
Eu até tenho alguma facilidade de entrar em transe em momentos de hiperfoco, mas geralmente acontecia como uma espécie de transe ativo, quando dirigia o carro na estrada e, por alguns instantes, parecia que eu era o próprio carro ou no jiu-jitsu em que parecia que eu era a própria luta, mas nunca conseguia induzir em uma meditação, talvez pelo meu TDAH e a mente sempre acelerada. Até que um dia, eu ainda fazia engenharia eletrônica (nossa, parece que foi ontem, mas tanta coisa mudou, já terminei outra faculdade depois disso), Tamine convocou as pessoas que estavam frequentando o GECOM (uma espécie de diretório acadêmico nosso) para tentar fazer uma meditação conjunta e ali, pela primeira vez, eu acho que consegui meditar e entrar em um mini transe de forma intencional. Por isso, todas as vezes que medito me lembro com algum carinho da Tamine.
É engraçado como as pessoas passam pela nossa vida e deixam marcas, ainda que singelas. Eu amo essa troca, a humanidade me cativa muito. Sobretudo quando penso na finitude e na complexidade das relações. Quantas pessoas que, por uma série de circunstâncias, só passaram pela sua vida, mas que poderiam fazer parte dela? Quantas pessoas ainda estão na sua vida e ocupam papéis distintos? A mesma pessoa que teria todas as características para ser um melhor amigo ou uma companheira por vezes está do outro lado de uma relação de trabalho que posiciona essa pessoa de maneira única no tabuleiro da vida e dá a ela significados distintos. Penso sempre sobre isso e tenho vontade de escrever sobre momentos e pessoas que passaram pela minha vida, assim, sem o objetivo de que alguém leia, mas como uma espécie de caderninho de memórias. Escrevo esse texto ainda com o fone de ouvido tocando a playlist que me auxiliou no transe de hoje, sem pensar muito, só escrevi. Espero que eu siga fiel a essa ideia e esse "projeto" não acabe por aqui, mas eis o primeiro texto da série.
Quanto à Tamine, embora tenha tido a sorte (ou o azar) de ser a primeira homenageada pelo texto, não tenho mais contato algum com ela, na verdade, sempre me intriga muito o fato de que ela parece simplesmente ter me excluído do Instagram dela (embora ainda me siga). De todo modo, cada doido com sua doideira, não faço ideia do motivo. Cheguei a pensar que ela pudesse imaginar que eu estaria dando em cima dela (dado que sou meio sem noção e gosto das pessoas, sempre fico com medo do meu carinho transparecer algum interesse no sentido sexual) ou está com algum namorado ciumento que não me conhece o suficiente, sei lá. De todo modo, tá aqui para o universo, um texto que ninguém vai ler nunca, salvo as IAs que varrem a internet, para dizer que, não importa onde você esteja, um pedacinho de mim sempre estará desejando que tenha uma vida feliz.